Terremotos no Brasil: O que está por trás dos abalos sísmicos em nosso território?
Quando falamos de terremotos, o Brasil geralmente não é o primeiro lugar que vem à mente. Ao contrário de regiões como o Japão, Chile ou Indonésia, onde os abalos sísmicos fazem parte da vida cotidiana, nosso país parece estar em uma "zona de conforto" tectônica. Afinal, estamos longe dos limites de placas tectônicas, onde a maior parte da atividade sísmica ocorre. No entanto, engana-se quem pensa que o Brasil está completamente a salvo de terremotos.
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| Distribuição dos terremotos no mundo com destaque para a região do Círculo de Fogo do Pacífico |
Terremotos ou sismos?
Antes de mergulharmos nas particularidades dos terremotos no Brasil, é interessante esclarecer a diferença entre os termos "terremoto" e "sismo", já que são usados com certa frequência de forma intercambiável. Tecnicamente, ambos os termos se referem ao mesmo fenômeno: o movimento brusco da crosta terrestre causado pela liberação de energia acumulada em falhas geológicas ou por outros processos tectônicos.
A palavra terremoto é mais comumente usada quando o abalo sísmico causa danos ou quando há percepção significativa do tremor pelas pessoas. Já o termo sismo é mais amplo e pode se referir a qualquer evento sísmico, independentemente de sua magnitude ou impacto. Então, todos os terremotos são sismos, mas nem todos os sismos são terremotos. Pequenos sismos que muitas vezes nem são sentidos pela população, mas registrados por sismógrafos, podem não ser classificados como terremotos por não causarem destruição ou impacto significativo.
No entanto, não existe uma definição técnica clara que separe os 2 termos. Essas definições são mais associadas ao uso pelos Geofísicos no cotidiano. Em alguns países, os profissionais têm um maior rigor na separação deles, como em Portugal. Mas nos EUA, por exemplo, tanto os sismos menores quanto os maiores recebem a denominação de "earthquake" que, ao pé da letra, significa terremoto. Então, ao longo desse texto vou usar as 3 palavras como sinônimos, já que, diante da ausência de acordo técnico de uso delas, não estaria cometendo um erro ao chamar um evento sismico fraco de terremoto. Afinal, a partir de qual magnitude um sismo passaria a ser um terremoto? Ou a partir de qual tipo de destruição um sismo poderia ser chamado de terremoto? Trincas em casas, quedas de objetos, paredes e tetos caindo... A separação é bastante subjetiva.
Terremotos no interior de uma placa tectônica
O Brasil está localizado no centro da Placa Sul-Americana, longe das zonas de colisão de placas tectônicas. Essas zonas são conhecidas por provocar os terremotos mais devastadores do mundo, como o que ocorreu no Chile em 1960, com uma magnitude impressionante de 9,5. Então, por que temos terremotos aqui?
A resposta está nas falhas geológicas e na reacomodação do solo de esforços tectônicos que ocorrem no interior da placa. Esses esforços podem se acumular ao longo de centenas ou até milhares de anos, e, quando liberados, provocam terremotos. Embora esses eventos geralmente tenham magnitudes menores que os registrados em áreas de subducção (como o Japão ou os Andes), eles ainda podem ser sentidos e causar danos.
Onde os terremotos ocorrem no Brasil?
Historicamente, algumas regiões do Brasil têm registrado atividade sísmica com mais frequência. Entre essas áreas, destacam-se o Nordeste, especialmente os estados do Rio Grande do Norte e Bahia, e a região Sudeste Minas Gerais na liderança em número de tremores de terra.
No Rio Grande do Norte, a cidade de João Câmara foi palco de um dos maiores terremotos da história recente do Brasil, em 1986, com uma magnitude de 5,1. O abalo foi forte o suficiente para danificar centenas de construções e desabrigar milhares de pessoas.
Outro exemplo é o terremoto registrado em Montes Claros, Minas Gerais, em 2012, com magnitude de 4,2, registradas por alguns centros pesquisa. Esse evento também resultou em danos a construções, principalmente aquelas mais antigas e vulneráveis. Estes são exemplos que mostram que, embora o Brasil não sofra com terremotos devastadores, há regiões onde esses fenômenos ocorrem com certa regularidade.
Vale ressaltar também os sismos que ocorrem na região amazônica, como o registrado no Acre, em 2015. O epicentro foi no Peru, mas o tremor foi sentido em cidades brasileiras próximas, mostrando que o país pode sentir os efeitos de grandes terremotos que ocorrem em países vizinhos, como Chile e Peru.
Além disso, os sismos do Acre são bem profundos, com mais de 100 km de profundidade a partir da superfície e estão relacionados com a subducção da placa de Nazca sob a placa Sul-Americana. Ali, embaixo do Acre, está a "ponta" da placa de Nazca e daí os tremores fortes ocorrendo na região, mas por serem muito profundos, a intensidade sentida na superfície é baixa. Além disso, esses sismos por terem natureza tectônica, não entram no catálogo sísmico brasileiro.
Já os tremores localizados no restante do Brasil são rasos (com até 10 km de profundidade) mas com magnitudes menores, variando de 1 a 4, em média.
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| Sismos no Brasil com magnitudes maiores que 2,5 (1720 - 2023) Fonte: Rede Sismográfica Brasileira |
O que está por trás desses terremotos?
O Brasil está repleto de falhas geológicas ativas que, embora não sejam tão conhecidas como as falhas de San Andreas, nos EUA, ou as falhas andinas, são responsáveis por abalos sísmicos. Falhas como as de Pernambuco, Rio Grande do Norte e a Falha de São Francisco, em Minas Gerais, são áreas onde a crosta terrestre está sujeita a tensões que podem resultar em terremotos.
Essas falhas são remanescentes de eventos geológicos passados, e o movimento tectônico que ocorre hoje continua a exercer pressão nessas zonas. Assim, à medida que a Placa Sul-Americana se move, mesmo que lentamente, tensões acumulam-se e, eventualmente, são liberadas em forma de abalos sísmicos.
Monitoramento sísmico no Brasil
Dado que o Brasil não tem terremotos frequentes e devastadores, como os países localizados no Cinturão de Fogo do Pacífico, muitas vezes não damos a devida atenção ao monitoramento sísmico. No entanto, instituições como o Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB) e o Centro de Sismologia da USP realizam um trabalho crucial no acompanhamento de abalos sísmicos no país.
Esses centros contam com redes de sismógrafos espalhadas por todo o território nacional, capazes de detectar até os menores tremores. Esses dados são essenciais para compreender a dinâmica tectônica do país e para alertar a população em áreas mais suscetíveis a terremotos. Embora o Brasil não tenha um histórico de grandes tragédias associadas a abalos sísmicos, esse monitoramento é fundamental para minimizar os riscos, especialmente nas regiões onde os sismos são mais frequentes.
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| Rede Sismográfica Brasileira (estações com sismógrafos espalhadas pelo Brasi). As cores representam a instituição responsável por cada estação. |
E quanto ao futuro?
O Brasil, ao contrário de outros países, não precisa se preocupar com terremotos catastróficos. No entanto, isso não significa que estamos completamente imunes. Em um cenário de crescente urbanização e expansão das cidades, mesmo tremores de baixa magnitude podem causar danos, especialmente em construções mal planejadas e sem reforços estruturais adequados. Áreas como o Nordeste e o Sudeste continuam a ser monitoradas, já que possuem uma concentração maior de sismos.
Além disso, a exploração de recursos naturais, como a mineração, também pode ser um fator de risco. Em algumas partes do mundo, a prática de fracking (fraturamento hidráulico) tem gerado terremotos induzidos, e é algo a ser observado em regiões brasileiras onde essa técnica possa vir a ser utilizada.
Embora o Brasil não seja um país de grandes terremotos, o fenômeno existe e merece atenção. As falhas geológicas e os esforços tectônicos no interior da Placa Sul-Americana são os principais responsáveis por abalos sísmicos no território nacional. É importante que continuemos a estudar e monitorar essas áreas, garantindo que estejamos preparados para lidar com esses eventos, mesmo que raros.
Portanto, ao contrário da percepção comum, os terremotos no Brasil são um lembrete de que, mesmo longe dos grandes limites tectônicos, a Terra está sempre em movimento, e precisamos estar atentos a essas forças que moldam nosso planeta.
Leandro Ribeiro Nogueira
Professor de Geografia
Especialista em Gestão e Manejo de Recursos Naturais
Mestre em Ensino das Ciências da Saúde e do Meio Ambiente



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